ANTONIONI

Um dos diretores italianos que admiro além da conta é o Michelangelo Antonioni. Seus personagens são intensos, solitários, perturbados, inquietantes e, até porque não, cansativos. Para quem não sabe, ele fez a Trilogia da Incomunicabilidade (A Aventura [60], A Noite [61] e O Eclipse [62]). Segundo o próprio, os três filmes propõem mostrar a dificuldade das relações humanas, resultando em sentimentos como ansiedade e incompletude. Antonioni também faz uma crítica aos danos causados pelo capitalismo. A trilogia conta com minha musa capilar, Monica Vitti, que teve um romance com o diretor.

Se, na década de 60, a impossibilidade da comunicação já era um fato mais do que consumado, imagina hoje que afundamos os rostos em nossos smartphones? Eu, por exemplo, tenho uma certa dificuldade em me expressar sentimentalmente. Vou bem até um certo momento, mas quando presto atenção em detalhes pequeninos, fico tensa e começa a explosão de chorume emocional. As pessoas andam mais rasas do que nunca e desistem muito rápido do outro. Pra que entender a pessoa ao lado, se as janelas de chats estão piscando por aí?

É muito cansativo ter essa urgência em querer amar alguém, se você não encontra um ser humano disponível emocionalmente. Talvez o erro maior é a tal afobação em fazer dar certo, quando o medo, a possessividade, a falta de comunicação e a insegurança imperam. Um comparativo tosco que fiz esses dias: o amor é meio parecido quando você começa a fumar e acha que não vai viciar. Quando menos espera acaba com três maços por dia. Perdeu o controle total. To-da vez acredito que sairei ilesa ou serei feliz, e a realidade geralmente é oposta disso. DESMOTIVADOR, devo dizer.

Alguns dos personagens do Antonioni são misantrópicos, neuróticos e entendiados – características estas, que nos aproximam deles.  Separei alguns stills que me identifico muito.

A NOITE

Vou começar pel’A Noite porque é meu predileto da trilogia. O filme é sobre um casal (Mastroianni e Moreau) que está de saco cheio um do outro. Os dois visitam um amigo no hospital e depois vão para uma festa da high society italiana onde conhecem outras pessoas, inclusive a personagem maravilhosa da Monica Vitti. Aqui tem uma resenha muito bacana a respeito, mas devo dizer que o diálogo entre os personagens principais são certeiros para aqueles que sofrem de tédio (seja sozinho ou acompanhado).

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minha vida
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Quando você se sente sozinha, mesmo estando casada…
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Sim! Chama-se Karma sentimental

O Eclipse

Um filme pesado, um pouco arrastado, porém, com um final arrebatador. Vitti chega com uma personagem que acabou de terminar seu relacionamento e conhece um corretor da Bolsa de Valores, papel do belo Alain Delon (<3). O romance dos dois parece incerto e confuso – como tudo na vida. Antonioni mostra – mais uma vez – o engessamento das relações e a chatice da rotina capitalista. Aqui tem um resenha boa.

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queria não ter te amado, ou ter te amado melhor – ASS: EUZINHA
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Duas pessoas não deveriam se conhecer tão bem, caso elas queiram se apaixonar. e aí? sim ou não? falta de comunicação? revele menos?

A Aventura

Esse é o primeiro da tríade e o deixei por último mesmo. É a história de amigos que vão passear numa ilha inabitada da Sicília, e uma das meninas briga com o namorado e some. Os amigos vão atrás da moça, e durante esta busca é possível analisar o vazio existencial, tédio e a frustração dos personagens. Aqui tem uma crítica bacana a respeito.

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ADENDO: Deserto Vermelho

Deserto Vermelho é certamente meu filme predileto do Antonioni. Inclusive, já citei a Giuliana, personagem da Vitti, aqui. Além de ser o primeiro filme colorido do diretor, também é um dos mais densos. Imagina morar em uma cidade industrial com poluição excessiva, neblina, frio etc? Pensou em qualquer capital desse mundão velho de meu Deus? Eu também! Pois este filme continua com o tema da incomunicabilidade, tédio, solidão, vazio existencial e, principalmente, a neurose urbana. A personagem de Vitti é solitária, angustiada, não possui muito traquejo social – resultado de seu isolamento e, muitas vezes, é agressiva. Traumas pessoais e o capitalismo industrial são os grandes culpados do tormento da mulher em questão. Ao conhecer um dos funcionários de seu marido – dono de uma usina – Giuliana parece menos entendiada e consegue expressar sua agonia perante o mundo. Aqui tem uma resenha legal.

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Minha terapeuta falava isso pra mim também
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Minha vida toda eu segurei esse mapa mundi procurando um lugar pra me sentir melhor. Fugir realmente não adianta porra nenhuma. Leia isso aqui e entenda

“I’ve learned to value failed conversations, missed connections, confusions. What remains is what’s unsaid, what’s underneath. Understanding on another level of being.” ―Anna Kamieńska [daqui]

2 Comentários em A complexidade dos personagens Antonionianos

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