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Quando soube que teria uma exposição com a retrospectiva do trabalho da Marina Abramovic, fiquei toda animada para ir porque acho as performances delas bem interessantes. O meu lance com essa artista começou em 2013 quando assisti ao documentário da HBO, The Artist is Present. Lembro que fiquei muito, mas muito emocionada com a sensibilidade e intensidade dela. Chorei horrores e fiquei um tempo meio que obcecada. Comecei até a fazer rituais xamânicos graças a ela. Marina hipnotiza de uma forma deveras interessante, acho que é impossível não querer mergulhar no que é feito. Enfim, como minha vida deu uma certa modificada, não consegui ir antes e participar de alguma palestra dela. Pelo contrário, só fiz o Método Abramovic na última semana de exibição.

O que é?

Terra Comunal – Marina Abramović apresentava uma retrospectiva do conjunto de obras da artista no Sesc Pompéia, em SP. Você podia mergulhar em todas as performances feitas por ela e seu ex-marido Ulay por meio de instalações, objetos, vídeos e registros documentais. O que me comove em seu trabalho é o fato dela sempre incluir o público. É uma troca de energia fora do comum, coisa que muito artista não se importa. As principais obras em que as pessoas participam intensamente são: The House with the Ocean View [A Casa com Vista para o Mar] (2002), The Artist Is Present [A Artista Está Presente] (2010) e 512 Hours [512 Horas] (2014).  Neste último, o público é corpo ativo da performance. Na exposição era possível escutar o relato da Marina e de sua assistente Lynsey a cada dia (escutei quatro deles e foi foda porque ela faz interpretações bem bacanas do que ocorre). A Artista está Presente ainda é o mais famoso e que quase todo mundo já deve visto por aí. É legal falar que a internet conseguiu romantizar o encontro dela com Ulay e nada a ver, viu? Ele não apareceu de surpresa (Marina tinha consciência que ele iria visitá-la e até conta no doc que tinha ido ao terapeuta, hahaha). Sem contar que Ulay a sacaneou horrores antes deste reencontro, hehe. OK.

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Um conjunto de vídeos apresenta o registro de performances de Abramović e disponibiliza um raro material de arquivo. Marina Abramović sempre gravou suas performances com o intuito de democratizar sua obra e tornar esses eventos efêmeros acessíveis ao público. Buscando uma maneira de mostrar fielmente os efeitos da duração numa performance, a artista desenvolveu um exercício constante de tentativa e erro na busca por proporcionar uma nova experiência performática através do vídeo. – Daqui

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It’s like being in love: giving somebody the power to hurt you and trusting (or hoping) they won’t – Marina Abramović

Sou apaixonada pela performance acima, Rest Energy, 1980. Marina e Ulay ficaram quatro minutos e 10 segundos se enfrentando com um arco e uma flecha. A mira da flecha era o coração de Marina e Ulay segurava a extremidade sem poder escapar. Foi colocado microfones em seus peitos para captar o som dos batimentos cardíacos – que era bem rápido por conta do perigo da performance. E isso é exatamente o relacionamento amoroso, não? Cada um aponta uma flecha para o coração do outro e vale da confiança na relação para não soltá-la e não ferir ninguém. FO-DA.

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A foto acima é da The Artist Is Present feita em 2010, no  MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York. Marina ficava sentada em uma cadeira, imóvel e em silêncio, e os visitantes sentavam à sua frente, mantendo um contato visual sem limite de tempo. Foram 736 horas, ao final das quais ela havia mantido contato visual com 1675 pares de olhos.

 A obra corporifica a completa vulnerabilidade e abertura de Abramović perante o público.

Outra instalação que AMEI (esqueci de tirar foto, desculpa): Transitory Objects for Human Use [Objetos Transitórios para Uso Humano] que foram criados entre 1990 e final dos anos 2000. Ali é o início da prática em que a artista convida o público a interagir com objetos, porém, sempre com instruções. O mais interessante é que cada pessoa se conecta da forma que bem entender, é uma experiência pessoal e Marina não te impõe a nada (o que você deve sentir ou não). Os objetos são cristais que irradiam energias, <3.

Método Abramovic

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Além da retrospectiva das obras de Marina, também é possível conhecer seu método. Ela o criou para dar um tipo de paz para mente humana e a possibilidade em se conectar consigo mesmo. Resolvi me inscrever nos últimos dias (não consegui ir antes mesmo).

 O Método Abramović é uma oportunidade de ficar em silêncio e sintonia com o momento presente. Ao longo de suas práticas artísticas, Abramović vem borrando os limites entre o observador e o observado no contexto da performance. Tradicionalmente, o performer seria observado e o público seria o observador. Trocar esses papéis e pedir ao público que participe da ação, e passe a ser o observado, cria oportunidade para vivenciar uma experiência pessoal e compreender o processo performático – o que prepara o público para melhor absorver e apreciar performances de longa duração. – Daqui

A artista criou uma série de Objetos Transitórios (que citei acima) em que é possível interagir com três tipos de posturas básicas: em pé, sentado e deitado. Como é: antes de ir para a experiência, assistimos um vídeo em que fizemos exercícios para liberar a mente e o corpo. São duas horas de práticas onde não é possível falar ou escutar nada (nos deram um fone que abafava o som de fora). A interação é somente consigo mesmo e com os objetos disponibilizados.

1ª experiência – fiquei em pé num totem de madeira com três cristais alinhados na cabeça, coração/peito e barriga. Os principais pontos dos chakras, né? Meia hora ali, sem fazer nada. Quem se cansa, pode sentar no banquinho ao lado, mas acho que ninguém o fez (realmente me desliguei). Enquanto fazia, pensei a respeito dos cristais porque muita gente já havia passado ali e a energia estava estocada. Mas resolvi concentrar na minha própria energia. Foi interessante e confesso que meu predileto.

2ª experiência – fiquei deitada durante meia hora em uma cama de madeira onde tinha um cristal no meio (nas costas) e um cristal gigante como travesseiro. Tentei dar uma meditada, mas cochilei. Quando a moça me chamou, levei um susto.

3ª experiência – meia hora de slow walking e para mim foi o pior de todos. eu sempre achei ridículo a correria do metrô, as pessoas se atropelando nas escadas rolantes ou no próprio trem. confesso que fiz tudo isso em uma semana em SP. GO WITH THE FLOW de forma patética e descontrol. logo andar em câmera lenta por meia hora foi difícil. eu cheguei a ultrapassar duas pessoas – mesmo estando mega lerda e seguindo o passo do facilitador. nesse momento prestei atenção no meu sentimento em querer atropelar todo mundo e como estava errada.

4ª e última experiência – fiquei sentada meia hora olhando pro nada em uma cadeira de madeira com cristais atrás (cada cadeira tinha um design diferente na colocação dos cristais). fiquei olhando pra uma parede branca e não fiquei nervosa. comecei a meditar, fechava os olhos e quando abria perdia meu ponto de referência (que era uma sujeirinha bem pequena). enfim, não achei horrível e fiquei de boa.

Vale a pena? Para quem não se incomoda em enfrentar a própria mente e corpo, sim, vale a pena.

O Método Abramović é uma síntese de todo o conhecimento de Abramović sobre performance. Por meio do tempo e da dedicação, as práticas possibilitam experiências transformadoras. O público é levado a se aprofundar nessa experiência de troca de energia.

A exposição ficou do dia 10 de março a 10 de maio no Sesc Pompéia. Inclusive teve encontros com Marina. Para quem gosta de performance artística e, principalmente, da Abramovic foi um prato cheio. O trabalho dela é sobre sacrifício, capacidade de concentração e entrega total, bem como a transcendência mística que muitas pessoas não acreditam. Além disso, Marina é fiel a respeito do presente, o agora. O momento é este, vale a pena senti-lo. DEUSA.

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