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Hoje, além de ser o Dia Internacional da Mulher, também é a data em que minha vó completaria 100 anos. Como é sabido, fui basicamente criada por mulheres: mãe, tias e, principalmente, pela minha vó. Como minha mãe sempre trabalhou fora e era sozinha, eu passava muito tempo com minha Vó Santa. Com ela aprendi muitas coisas incríveis e compreendi como a danada era fora do tempo. Dona Santa era uma pisciana nata: artística, quieta, mas quando falava todo mundo se calava porque sabia que vinha algo muito interessante para se absorver. Pelo menos comigo era assim. A mãe dela – minha bisavó – já não foi uma mulher “padrão” para época. Ficou viúva e casou de novo. Imagina que isso lá em 1900 e bolinha era algo aceitável, né? Mas ela casou duas vezes e dane-se. Não ficou de viuvona sofrida.

Quando minha mãe divorciou-se deu a maior força e, inclusive, ia sozinha nos visitar em Brasília. Meu vô também não era totalmente O macha alfa opressor, sabe? Ele ensinava as filhas a dirigir, incentivou todas entrarem na escola/faculdade etc. Não era perfeito, óbvio, mas não era tão castrador inconsequente.

Lembro de várias coisas que minha vó me falava lá com seus 85 anos e que considerávamos algo “moderno”. Moderna nada, era puro BOM SENSO. Vou citar em tópicos:

  • Ela sempre me incentivou a tirar carteira de motorista. Dizia que era minha independência e se arrependeu quando meu vô falou pra tirar e ela não o fez. Existia toda uma preguiça por parte dela pela facilidade das caronas dos filhos e por morar no Centro da cidade (no interiorzão do PR);
  • Uma vez estávamos falando sobre relacionamento (eu deveria ter uns 15/16 anos) e ela disse para eu morar junto antes de casar seriamente para que pudesse conhecer o cara melhor e não ter passar por grandes traumas;
  • Ela não ficou chocada quando descobriu que meu primo era gay. Pelo contrário, tratava isso com a maior naturalidade e ainda conheceu um namorado dele;
  •  Falávamos sobre sexo super de boa. Ela me contava como era com meu vô (não com grandes detalhes), mas não se fazia de virgem Maria não. E disse que adorava transar. Minha mãe tava junto esse dia e ficou chocada. Detalhe: minha vó pediu pra minha mãe deixar de ser mimizenta (não com essas palavras);
  • Todo mundo achou que minha vó iria partir depois que meu vô morreu. Viveu por mais uns 20 anos. BREAKING NEWS: ela tinha outras coisas na vida, além de ser apenas mulher dele. SURPRISE;
  • Ela me contava sobre namoradinho da adolescência que tinha um cachorro pastor alemão e quando eles se encontravam escondido. SÉRIO, melhor vó;
  • Achou interessante quando fiz minha primeira tatuagem;
  • Ela era oficialmente católica, inclusive levei muita rosa que ela mesma colhia para Nossa Senhora Aparecida (ela enxergava mal e eu levava na igreja por/para ela). PORÉM, ela adorava tomar passe espírita e a comadre dela (madrinha da minha mãe) era mãe santo. Ah, não encrencou comigo quando me recusei a fazer catequese;
  • Gostava de escutar música no discman.

Enfim, minha vó sempre vai ser uma das grandes referências da minha vida. Não digo que ela era uma feminista exemplar, mas clamava pelas suas necessidades e das suas filhas. Vó, te amo, saudades! Feliz 100ª!

2 Comentários em Feliz Dia da Mulher, Vó Santa

  1. Eita que vc é mesmo neta da sua vó e filha da sua mãe :) Muito bom conhecer um pouco mais da Vó Santa. Realmente ela era uma mulher especial, exatamente como vc <3

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