Um dos filmes da minha vida é a Liberdade é Azul. É da Trilogia das Cores (Trois Couleurs: Bleu, Blanc et Rouge) do falecido diretor polonês Krzysztof Kieslowski que baseou a obra nas três cores da bandeira francesa, tendo o lema da Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade como mote, mas sem partir pra politicagem. Já o citei algumas vezes em outros posts e em um outro blog que tinha, então vou relembrar porque ando pensando muito nele. Pra mim é a tríade do amor cinematográfico: fotografia bonita, trilha sonora perfeita e direção (feat roteiro) sensacional.

[ANTES DE LER AVISO QUE TEM ALGUNS SPOILERS]

Existe identificação com certas atitudes da personagem Julie Vignon de Courc (interpretada pela maravilhosa Juliette Binoche) que aprendi com tempo e meio ano de terapia que não resolvem nada e só prolongam a dor. Para situar do que se trata o Azul, primeiro da trilogia e gravado em 1993: a vida dela começa a desabar depois de um acidente de carro em que perde a filha de 5 anos e o marido, um compositor francês reconhecido internacionalmente que estava finalizando a canção para a Unificação da Europa. Julie – que sobrevive ao acidente – realiza que, para se ver “livre” da dor, necessita começar tudo de novo.

Basicamente, Julie se esconde de qualquer coisa que possa lembrá-la do que aconteceu. Inclusive, tenta até o suicídio no hospital. Mesmo depois de abrir mão da casa, pertences e até do antigo sobrenome, ou seja, completamente afastada do que era sua realidade, ela sempre se depara com algo que a lembra do passado (uma música, uma pessoa, a amante do marido, um doce na bolsa que era da sua filha e até mesmo ratos). Em suma, toda essa perseguição das lembranças frustra sua ideia da liberdade e a dor se intensifica. A máxima da personagem é que amores, memórias, amigos e pertences são armadilhas. Perder tudo isso é doloroso.

O filme todo possui sequências belíssimas e poéticas como a do torrão de açúcar no café, por exemplo, ou a cena do móbile azul no quarto da filha, o cordão com crucifixo que é exaltado algumas vezes e até mesmo quando Julie toca nas partituras e sai a música que o marido compunha. A que acho mais incrível e que demonstra toda dor da personagem, é quando, ao sair do casarão da família que recém entregou, ela esfrega a mão com toda força no muro a fim de que a dor física alivie o tormento mental. É intenso e você sente o desespero dela em tentar se machucar fisicamente para fugir por segundos do luto que dilacera sua alma. Quem assiste ao filme, sente a entrega de Binoche à personagem, tendo em vista que ela realmente esfregou a mão sem proteção, o que Kieslowski não aprovou. Inclusive, segundo a atriz, levou um ano para cicatrizar por completo. Mas né, uma das cenas mais “aflicetas” que conheço.

Julie, ao longo de sua nova vida, atenta ao fato que não tem como escapar de situações e pessoas, e começa a encarar o que antes fugia. Não tem como se libertar do passado e o ato de confrontar o inevitável poderá amenizar. A única cena que enxergo um certo descanso mental é quando ela cochila numa praça com o sol em seu rosto e até aparece a tela branca que representa a serenidade da ação (geralmente aparece telas pretas de luto). Porém, esse momento tem um significado, pois é quando aparece a velhinha que tenta colocar garrafa no lixo reciclado. Nos três filmes essa mesma senhora surge como uma redenção para os personagens sempre na mesma praça e ação. Interessante observar.

O filme carrega o azul que é uma cor que representa a tristeza e a liberdade, vibrando intensamente na tela alternando com as piscadelas dos frames pretos do luto. Sem contar a música que é fator indispensável na obra: Julie ajuda o assistente de seu falecido marido – apaixonado por ela – a finalizar a composição para cerimônia da Unificação da Europa. A sinfonia criada pelo compositor polonês e amigo de Kieslowski, Zbigniew Preisner completa magistralmente a produção, dando o toque intenso e doloroso que o roteiro exige.

A versão da composição final vem com o coro cantando (em grego) da Carta de São Paulo aos Coríntios em que a personagem aceita sua dor e, ao finalizar a música do marido, consegue – finalmente – chorar pela tragédia que assolou sua vida. Sem sombras de dúvida, a Liberdade é Azul é uma película extremamente pessoal bem como o luto de cada pessoa. Um filme sobre a fragilidade da vida, a não aceitação da morte, o luto, a fé e toda uma sorte de questionamentos que somente você poderá fazer ao assisti-lo.

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