Dia desses postei no Instagram alguns stills do documentário Paris is Burning, da diretora Jennie Livingston e lançado em 1990. É possível assisti-lo pelo youtube (a primeira vez que o vi foi lá) ou pela Netflix. Reassisti por causa do ep11 dessa (nona) temporada de RuPaul que faz desafio de Ball (tem em todas as temporadas) que é o principal assunto do doc. Deu saudadinha, sabe? Acho que vou começar a assistir todo ano quando tiver Ball em RuPaul. Aliás, quem assiste ao reality sabe que quase tudo é referência direta de Paris is Burning. Desde que o reality começou, a produção deixa isso bem claro, o que é ótimo e instiga ao telespectador a procurar mais informações desse mundo tão criativo e vasto.

O filme mostra como os bailes drags dos anos 80 funcionavam em boates em Nova York: desde suas regras, categorias, apresentação, danças, dificuldades e o estado socio-econômico-cultural que os frequentadores se encontravam. Apresenta por meio de entrevistas também as drag queens veteranas da época como Dorian Corey, Pepper LaBeija, Angie Xtravanganza, entre outras que eram as mães das casas que levavam seus sobrenomes. Essas mom drags costumam – até hoje existe isso – ajudar os jovens gays que são expulsos de casa, os tratando como filhos (dão assistência, comida e ensinam a se montar). Vale a pena ver e rever porque é muito bem produzido, cru, sem amarras e bláblá.

Pois bem, por conta das minhas postagens a Mariana Alcântara que acompanha por lá e aqui (Oi Mari!) deu a ideia em fazer um post para falar de algumas personagens que aparecem no documentário. Achei uma excelente ideia e aqui está:

PEPPER LABEIJA

Uma das mais incríveis e dona das citações mais memoráveis no documentário, além de ter sido a mãe mais old school das casas. LaBeija nasceu dia 05 de novembro de 1948 como William Jackson no Bronx (NY) e, em 1971, tornou-se a cabeça dos bailes do Harlem e mãe da House of LaBeija, sendo a matrona por cerca de 30 anos. Também pedia para ser chamada pelo pronome feminino (ela), mesmo quando não estava montada.

Era conhecida pela pose “Fazer a Egípcia” nas passarelas e por ser ganhadora de aproximadamente 250 troféus. Para ganhar dinheiro, ela produzia alguns bailes drags e modelava. LaBeija aparece em outro documentário, o How Do I Look (2006). Infelizmente sofria de diabetes mellitus tipo 2 e teve os dois pés amputados, o que a manteve na cama nos 10 anos finais de sua vida. Morreu em 14 de maio de 2003 de ataque cardíaco no Hospital  Roosevelt em Manhattan com apenas 54 anos. Na cultura popular foi citada na música Deep In Vogue de Malcolm McLaren que foi um tributo aos bailes gays novaiorquinos dos anos 80. No mesmo clipe aparece Willi Ninja que irei citar mais frente.

DORIAN COREY

Eu AMO Dorian Corey. Junto com LaBeija é minha predileta em Paris is Burning, não somente pelas citações e glamour, mas pela loucura que foi sua vida. Nascida em Buffalo como Frederick Legg em 1937, Dorian foi drag queen, performer e fashion designer formada apenas pela Parsons The New School for Design. Mesmo morando numa fazenda nos Estados Unidos, ela já performava e em 1950 trabalhou vestindo manequins de vitrines em lojas de departamento de sua cidade. Ao mudar para Nova York nos anos 60 para estudar arte, fazia freelas como dançarina na Pearl Box Revue, um cabaré de performance de drags.

Mãe da House of Corey, ganhou diversos prêmios nos bailes e foi mãe de Angie Xtravaganza que mais tarde abriu sua própria casa (irei citá-la a seguir). A bonita também desenhava sua linha de roupas chamada Corey Design. Morreu com 56 anos em 29 de agosto de 1993 por complicações de saúde devido a AIDS.

Depois de sua morte foi descoberto um corpo mumificado em seu armário (SIM). A múmia com um tiro na cabeça em questão era Robert Worley (aka Robert Wells), um possível amante de Corey que era extremamente abusivo, já que tinha dezenas de passagens pela polícia. O corpo ficou por cerca de 15 anos entre os pertences da drag e é especulado que ela o tenha matado por legítima defesa. Alguns dizem que ela – chapada – já havia comentado algo a respeito, mas acharam que era devaneio de drogas. A descoberta nada usual chegou a aparecer na capa da revista New York que tem grande circulação no país. Aqui e aqui tem excelentes artigos sobre isso. Living la vida loca, monamu.

ANGIE XTRAVAGANZA

Angie Xtranganza bonitinha do nosso coração é uma libriana nata, nascida em Nova York no dia 17 de outubro de 1964. Fundou a House of Xtravaganza (eleganza, haha) em 1982 depois de passar pela House of Corey e foi uma das drags de maior presença nos bailes. Era transgênero e uma estrela do underground, mega ativa no cenário gay de Nova York. Sua casa foi a primeira latina, ajudando meninos que foram como Angie: expulsos de casa por serem gays. Em 1988 o autor e ganhador do Prêmio Pulitzer Michael Cunningham escreveu o livro “The Slap of Love” depois de entrevistar Angie e seus dois filhos Danni e Hector Xtravaganza para sua novela “Flesh and Blood”. O legado de Angie continua sendo parte da cultura undergound novaiorquina com a House of Xtravaganza existente até hoje.

Depois de sua morte, Angie apareceu na capa da seção “Styles” do The New York Times que falava sobre a cultura dos bailes e como o filme foi aceito (e sobre o investimento que foi feito para gravá-lo, entre outras tretas). Dá para ler o artigo de 1993 aqui.

VENUS XTRAVAGANZA

Venus Xtravaganza nasceu em 22 de maio de 1965 e foi um dos destaques de Paris is Burning por contar de fato como era a vida de uma transsexual em Nova York. Foi adotada pela House of Xtravaganza antes mesmo de ganhar bailes – o que é um fato bem incomum, pois quem quer entrar nas casas precisa mostrar “serviço” e ganhar troféus, além de entregar muito estilo, personalidade, carisma etc. Venus sempre foi diferenciada pelas sua atitudes e, principalmente, pelo visual (miúda, loira). No filme ela conta sobre seu sonho em ser “uma garota branca, rica e mimada dos subúrbios”, fazer sua cirurgia de resignação de sexo e casar na igreja.

Infelizmente, Venus foi assassinada durante as gravações e no final do documentário mostra sua mãe, Angie, dizendo que ela não a escutava e entrava em qualquer carro que a parasse. Seu corpo foi descoberto quatro dias depois de sua morte por um desconhecido no The Duchess Hotel, em 1988. Até hoje não sabem quem a estrangulou. Ela tinha apenas 23 anos.

WILLI NINJA

Provavelmente um dos bem mais sucedidos do documentário, Wili Ninja, mãe da House of Ninja (rápido e mortal como um deles) nasceu em 12 de abril de 1961 como William Roscoe Leake. Conhecido também como o padrinho do Voguing (sim, aquele movimento que ganhou mais fama ainda com Madonna) foi um dos nomes mais aclamados dos bailes por conta de suas coreografias extraordinárias. O documentário relata a verdadeira origem da dança e como era feita a competição por meio do desfile dos ball-walkers – caminhando e posando como movimentos fotografados das modelos pela revista Vogue. Em 1989, Ninja protagonizou com sua dança o clipe de Malcolm McLaren, Deep in Vogue, o que divulgou seu trabalho. Depois de um ano, Madonna o convidou para coreografar seu clipe Vogue que o eternizou de vez. Ninja viajava para turnês para outros países, indo até mesmo para o Japão e ensinava modelos iniciantes (e consagradas) e socialites a caminharem com fierceness.

Morreu no dia 02 de setembro de 2006 em Nova York de um ataque cardíaco em decorrência à AIDS. Depois de sua morte, ele continuou inspirando diversos artistas e DJs e foi figura central de estudos de gêneros e do movimento LGBT. Sua maneira transgressiva em performar e sua coreografia única também foi tema de diversos estudos. Seu exemplo é contado no livro Black Sexualities de Juan Battle e Sandra L. Barnes.

KIM PENDAVIS

Kim Pendavis é aquela danada carismática que não tem papas na língua. Era talentosa e costurava seus próprios looks com ajuda de seu namorado. Morreu de ataque cardíacos com vinte e poucos anos.

OCTAVIA SAINT LAURENT

Octavia St. Laurent é a nossa supermodel of the world (turn to the left)! Trans, modelo e performer, ela também cantava maravilhosamente bem e chegou a gravar um material. Octavia tinha como musa a modelo tcheca dos anos 80, Paulina e no documentário ela aparece fazendo testes para modelar. Apareceu também no doc How Do I Look, dirigido por Wolfgang Busch e, quando o mesmo foi lançado, ela surge como Heavenly Angel Octavia St. Laurent Manolo Blahnik (hahah adoro). Neste filme ela discute sobre uso de drogas, trabalho com sexo e a luta contra AIDS. Octavia morreu em 17 de maio de 2009 depois de uma longa luta contra o câncer.

PARIS DUPREE

Paris. Dupree. Paris. Dupree. O nome do documentário veio justamente por conta do nome dessa drag performática diva. Nascida em 1950, Paris foi mãe da House of Dupree que ajudava jovens gays a se expressarem da melhor forma possível: com arte. No documentário ela não aparece tanto, mas sempre será lembrada pelas expressões como “That’s right! I said it! Butch queen! Boy in the day, girl at night”. Paris morreu em agosto de 2011 em Nova York com 61 anos.

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E SER

4 Comentários em As drags mães de Paris is Burning

  1. Apenas maravilhoso esse post, descobri muitas coisas e o mais triste é que todas ou a maioria já morreu. Mas tá um apanhado incrível, e cada vez que assisto esse doc ou vejo coisas sobre drags antigas entendo mais referências, amo!

    Ah e você já notou como a música Purse First da Bob The Drag Queen tem muuuitas referencias ao doc? Eu assisti depois de ouvir a música e fiquei tipo, oooolha agora faz sentido. Mesma coisa com a 9ª temp que foi a primeira que assisti depois de ter visto Paris ir Burning, tudo faz sentido e tem muito mais significado agora.

    Amei <3

    • sim, quase todas morreram (e maioria de AIDS)!
      eu queria saber daqueles dois meninos, mas não achei nada durante essa pesquisa pro post. o Junior LaBeija tá vivo ainda (que é o OPULENCE).

      é muito amor e fiquei feliz que vc curtiu! adorei fazer esse post

      • O dia que eu tiver a oportunidade $$$ de ir pra NY vou caçar muito pra ver se acho um ball ou algo do tipo pra ir ver as crianças. Opulence! E eu também fiquei muito querendo saber desses meninos, eram tão novinhos e tão sem ninguém né, é triste mas pelo menos eles se uniam e faziam suas próprias famílias. Como diz a Mama Ru “We as gay people get to choose our family and the people we’re around” <3

      • nossa, seria um sonho ir num ball desse! mas se tava começando a ficar caído nos anos 80, imagina agora? diz que parece um clipe do perfume da Carolina Herrera (o que não é de todo mal hahah). de qualquer forma, gostaria de ir tbm :D

        sim, elas precisam de muito suporte pra dar conta de encarar esse mundo louco. espero que a netflix nao tire paris is burning do catálogo.

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