Cinema

As drags mães de Paris is Burning

Dia desses postei no Instagram alguns stills do documentário Paris is Burning, da diretora Jennie Livingston e lançado em 1990. É possível assisti-lo pelo youtube (a primeira vez que o vi foi lá) ou pela Netflix. Reassisti por causa do ep11 dessa (nona) temporada de RuPaul que faz desafio de Ball (tem em todas as temporadas) que é o principal assunto do doc. Deu saudadinha, sabe? Acho que vou começar a assistir todo ano quando tiver Ball em RuPaul. Aliás, quem assiste ao reality sabe que quase tudo é referência direta de Paris is Burning. Desde que o reality começou, a produção deixa isso bem claro, o que é ótimo e instiga ao telespectador a procurar mais informações desse mundo tão criativo e vasto.

O filme mostra como os bailes drags dos anos 80 funcionavam em boates em Nova York: desde suas regras, categorias, apresentação, danças, dificuldades e o estado socio-econômico-cultural que os frequentadores se encontravam. Apresenta por meio de entrevistas também as drag queens veteranas da época como Dorian Corey, Pepper LaBeija, Angie Xtravanganza, entre outras que eram as mães das casas que levavam seus sobrenomes. Essas mom drags costumam – até hoje existe isso – ajudar os jovens gays que são expulsos de casa, os tratando como filhos (dão assistência, comida e ensinam a se montar). Vale a pena ver e rever porque é muito bem produzido, cru, sem amarras e bláblá.

Pois bem, por conta das minhas postagens a Mariana Alcântara que acompanha por lá e aqui (Oi Mari!) deu a ideia em fazer um post para falar de algumas personagens que aparecem no documentário. Achei uma excelente ideia e aqui está:

PEPPER LABEIJA

Uma das mais incríveis e dona das citações mais memoráveis no documentário, além de ter sido a mãe mais old school das casas. LaBeija nasceu dia 05 de novembro de 1948 como William Jackson no Bronx (NY) e, em 1971, tornou-se a cabeça dos bailes do Harlem e mãe da House of LaBeija, sendo a matrona por cerca de 30 anos. Também pedia para ser chamada pelo pronome feminino (ela), mesmo quando não estava montada.

Era conhecida pela pose “Fazer a Egípcia” nas passarelas e por ser ganhadora de aproximadamente 250 troféus. Para ganhar dinheiro, ela produzia alguns bailes drags e modelava. LaBeija aparece em outro documentário, o How Do I Look (2006). Infelizmente sofria de diabetes mellitus tipo 2 e teve os dois pés amputados, o que a manteve na cama nos 10 anos finais de sua vida. Morreu em 14 de maio de 2003 de ataque cardíaco no Hospital  Roosevelt em Manhattan com apenas 54 anos. Na cultura popular foi citada na música Deep In Vogue de Malcolm McLaren que foi um tributo aos bailes gays novaiorquinos dos anos 80. No mesmo clipe aparece Willi Ninja que irei citar mais frente.

DORIAN COREY

Eu AMO Dorian Corey. Junto com LaBeija é minha predileta em Paris is Burning, não somente pelas citações e glamour, mas pela loucura que foi sua vida. Nascida em Buffalo como Frederick Legg em 1937, Dorian foi drag queen, performer e fashion designer formada apenas pela Parsons The New School for Design. Mesmo morando numa fazenda nos Estados Unidos, ela já performava e em 1950 trabalhou vestindo manequins de vitrines em lojas de departamento de sua cidade. Ao mudar para Nova York nos anos 60 para estudar arte, fazia freelas como dançarina na Pearl Box Revue, um cabaré de performance de drags.

Mãe da House of Corey, ganhou diversos prêmios nos bailes e foi mãe de Angie Xtravaganza que mais tarde abriu sua própria casa (irei citá-la a seguir). A bonita também desenhava sua linha de roupas chamada Corey Design. Morreu com 56 anos em 29 de agosto de 1993 por complicações de saúde devido a AIDS.

Depois de sua morte foi descoberto um corpo mumificado em seu armário (SIM). A múmia com um tiro na cabeça em questão era Robert Worley (aka Robert Wells), um possível amante de Corey que era extremamente abusivo, já que tinha dezenas de passagens pela polícia. O corpo ficou por cerca de 15 anos entre os pertences da drag e é especulado que ela o tenha matado por legítima defesa. Alguns dizem que ela – chapada – já havia comentado algo a respeito, mas acharam que era devaneio de drogas. A descoberta nada usual chegou a aparecer na capa da revista New York que tem grande circulação no país. Aqui e aqui tem excelentes artigos sobre isso. Living la vida loca, monamu.

ANGIE XTRAVAGANZA

Angie Xtranganza bonitinha do nosso coração é uma libriana nata, nascida em Nova York no dia 17 de outubro de 1964. Fundou a House of Xtravaganza (eleganza, haha) em 1982 depois de passar pela House of Corey e foi uma das drags de maior presença nos bailes. Era transgênero e uma estrela do underground, mega ativa no cenário gay de Nova York. Sua casa foi a primeira latina, ajudando meninos que foram como Angie: expulsos de casa por serem gays. Em 1988 o autor e ganhador do Prêmio Pulitzer Michael Cunningham escreveu o livro “The Slap of Love” depois de entrevistar Angie e seus dois filhos Danni e Hector Xtravaganza para sua novela “Flesh and Blood”. O legado de Angie continua sendo parte da cultura undergound novaiorquina com a House of Xtravaganza existente até hoje.

Depois de sua morte, Angie apareceu na capa da seção “Styles” do The New York Times que falava sobre a cultura dos bailes e como o filme foi aceito (e sobre o investimento que foi feito para gravá-lo, entre outras tretas). Dá para ler o artigo de 1993 aqui.

VENUS XTRAVAGANZA

Venus Xtravaganza nasceu em 22 de maio de 1965 e foi um dos destaques de Paris is Burning por contar de fato como era a vida de uma transsexual em Nova York. Foi adotada pela House of Xtravaganza antes mesmo de ganhar bailes – o que é um fato bem incomum, pois quem quer entrar nas casas precisa mostrar “serviço” e ganhar troféus, além de entregar muito estilo, personalidade, carisma etc. Venus sempre foi diferenciada pelas sua atitudes e, principalmente, pelo visual (miúda, loira). No filme ela conta sobre seu sonho em ser “uma garota branca, rica e mimada dos subúrbios”, fazer sua cirurgia de resignação de sexo e casar na igreja.

Infelizmente, Venus foi assassinada durante as gravações e no final do documentário mostra sua mãe, Angie, dizendo que ela não a escutava e entrava em qualquer carro que a parasse. Seu corpo foi descoberto quatro dias depois de sua morte por um desconhecido no The Duchess Hotel, em 1988. Até hoje não sabem quem a estrangulou. Ela tinha apenas 23 anos.

WILLI NINJA

Provavelmente um dos bem mais sucedidos do documentário, Wili Ninja, mãe da House of Ninja (rápido e mortal como um deles) nasceu em 12 de abril de 1961 como William Roscoe Leake. Conhecido também como o padrinho do Voguing (sim, aquele movimento que ganhou mais fama ainda com Madonna) foi um dos nomes mais aclamados dos bailes por conta de suas coreografias extraordinárias. O documentário relata a verdadeira origem da dança e como era feita a competição por meio do desfile dos ball-walkers – caminhando e posando como movimentos fotografados das modelos pela revista Vogue. Em 1989, Ninja protagonizou com sua dança o clipe de Malcolm McLaren, Deep in Vogue, o que divulgou seu trabalho. Depois de um ano, Madonna o convidou para coreografar seu clipe Vogue que o eternizou de vez. Ninja viajava para turnês para outros países, indo até mesmo para o Japão e ensinava modelos iniciantes (e consagradas) e socialites a caminharem com fierceness.

Morreu no dia 02 de setembro de 2006 em Nova York de um ataque cardíaco em decorrência à AIDS. Depois de sua morte, ele continuou inspirando diversos artistas e DJs e foi figura central de estudos de gêneros e do movimento LGBT. Sua maneira transgressiva em performar e sua coreografia única também foi tema de diversos estudos. Seu exemplo é contado no livro Black Sexualities de Juan Battle e Sandra L. Barnes.

KIM PENDAVIS

Kim Pendavis é aquela danada carismática que não tem papas na língua. Era talentosa e costurava seus próprios looks com ajuda de seu namorado. Morreu de ataque cardíacos com vinte e poucos anos.

OCTAVIA SAINT LAURENT

Octavia St. Laurent é a nossa supermodel of the world (turn to the left)! Trans, modelo e performer, ela também cantava maravilhosamente bem e chegou a gravar um material. Octavia tinha como musa a modelo tcheca dos anos 80, Paulina e no documentário ela aparece fazendo testes para modelar. Apareceu também no doc How Do I Look, dirigido por Wolfgang Busch e, quando o mesmo foi lançado, ela surge como Heavenly Angel Octavia St. Laurent Manolo Blahnik (hahah adoro). Neste filme ela discute sobre uso de drogas, trabalho com sexo e a luta contra AIDS. Octavia morreu em 17 de maio de 2009 depois de uma longa luta contra o câncer.

PARIS DUPREE

Paris. Dupree. Paris. Dupree. O nome do documentário veio justamente por conta do nome dessa drag performática diva. Nascida em 1950, Paris foi mãe da House of Dupree que ajudava jovens gays a se expressarem da melhor forma possível: com arte. No documentário ela não aparece tanto, mas sempre será lembrada pelas expressões como “That’s right! I said it! Butch queen! Boy in the day, girl at night”. Paris morreu em agosto de 2011 em Nova York com 61 anos.

 E NUNCA ESQUEÇA EM MOSTRAR

E SER

If I have not love, I am nothing

Um dos filmes da minha vida é a Liberdade é Azul. É da Trilogia das Cores (Trois Couleurs: Bleu, Blanc et Rouge) do falecido diretor polonês Krzysztof Kieslowski que baseou a obra nas três cores da bandeira francesa, tendo o lema da Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade como mote, mas sem partir pra politicagem. Já o citei algumas vezes em outros posts e em um outro blog que tinha, então vou relembrar porque ando pensando muito nele. Pra mim é a tríade do amor cinematográfico: fotografia bonita, trilha sonora perfeita e direção (feat roteiro) sensacional.

[ANTES DE LER AVISO QUE TEM ALGUNS SPOILERS]

Existe identificação com certas atitudes da personagem Julie Vignon de Courc (interpretada pela maravilhosa Juliette Binoche) que aprendi com tempo e meio ano de terapia que não resolvem nada e só prolongam a dor. Para situar do que se trata o Azul, primeiro da trilogia e gravado em 1993: a vida dela começa a desabar depois de um acidente de carro em que perde a filha de 5 anos e o marido, um compositor francês reconhecido internacionalmente que estava finalizando a canção para a Unificação da Europa. Julie – que sobrevive ao acidente – realiza que, para se ver “livre” da dor, necessita começar tudo de novo.

Basicamente, Julie se esconde de qualquer coisa que possa lembrá-la do que aconteceu. Inclusive, tenta até o suicídio no hospital. Mesmo depois de abrir mão da casa, pertences e até do antigo sobrenome, ou seja, completamente afastada do que era sua realidade, ela sempre se depara com algo que a lembra do passado (uma música, uma pessoa, a amante do marido, um doce na bolsa que era da sua filha e até mesmo ratos). Em suma, toda essa perseguição das lembranças frustra sua ideia da liberdade e a dor se intensifica. A máxima da personagem é que amores, memórias, amigos e pertences são armadilhas. Perder tudo isso é doloroso.

O filme todo possui sequências belíssimas e poéticas como a do torrão de açúcar no café, por exemplo, ou a cena do móbile azul no quarto da filha, o cordão com crucifixo que é exaltado algumas vezes e até mesmo quando Julie toca nas partituras e sai a música que o marido compunha. A que acho mais incrível e que demonstra toda dor da personagem, é quando, ao sair do casarão da família que recém entregou, ela esfrega a mão com toda força no muro a fim de que a dor física alivie o tormento mental. É intenso e você sente o desespero dela em tentar se machucar fisicamente para fugir por segundos do luto que dilacera sua alma. Quem assiste ao filme, sente a entrega de Binoche à personagem, tendo em vista que ela realmente esfregou a mão sem proteção, o que Kieslowski não aprovou. Inclusive, segundo a atriz, levou um ano para cicatrizar por completo. Mas né, uma das cenas mais “aflicetas” que conheço.

Julie, ao longo de sua nova vida, atenta ao fato que não tem como escapar de situações e pessoas, e começa a encarar o que antes fugia. Não tem como se libertar do passado e o ato de confrontar o inevitável poderá amenizar. A única cena que enxergo um certo descanso mental é quando ela cochila numa praça com o sol em seu rosto e até aparece a tela branca que representa a serenidade da ação (geralmente aparece telas pretas de luto). Porém, esse momento tem um significado, pois é quando aparece a velhinha que tenta colocar garrafa no lixo reciclado. Nos três filmes essa mesma senhora surge como uma redenção para os personagens sempre na mesma praça e ação. Interessante observar.

O filme carrega o azul que é uma cor que representa a tristeza e a liberdade, vibrando intensamente na tela alternando com as piscadelas dos frames pretos do luto. Sem contar a música que é fator indispensável na obra: Julie ajuda o assistente de seu falecido marido – apaixonado por ela – a finalizar a composição para cerimônia da Unificação da Europa. A sinfonia criada pelo compositor polonês e amigo de Kieslowski, Zbigniew Preisner completa magistralmente a produção, dando o toque intenso e doloroso que o roteiro exige.

A versão da composição final vem com o coro cantando (em grego) da Carta de São Paulo aos Coríntios em que a personagem aceita sua dor e, ao finalizar a música do marido, consegue – finalmente – chorar pela tragédia que assolou sua vida. Sem sombras de dúvida, a Liberdade é Azul é uma película extremamente pessoal bem como o luto de cada pessoa. Um filme sobre a fragilidade da vida, a não aceitação da morte, o luto, a fé e toda uma sorte de questionamentos que somente você poderá fazer ao assisti-lo.

Film Food: comida e cinema

Não sei vocês, mas sou daquelas pessoas lariquentas de filmes e seriados. Citando exemplos:

Já tive uma fase salada por causa do The Office e Michael Scott. Pedia muita salada, muita mesmo. Me sentia no seriado e até mais magra, hahaha. Só faltou comer papel mesmo.

Teve também a fase nojenta que foi com a Liz Lemon e o Cheetos. Aliás, se tem uma pessoa que me identifico 100% é com essa mulher porque até a forma escrota de comer é parecida. Tirando o fato que ela tá em forma e eu não.

Teve a fase fast-food e aloca da geladeira quando assistia Dexter. Teve uma vez que fritei ovo às 01h da matina porque tava fazendo binge-watching dessa série e toda vez que aparecia aquela merda de abertura me dava 3 mil tipos de laricas.

E never forget do monstro Hans Landa (Bastardos Inglórios) em uma cena tensa pra caramba, mas comendo deliciosamente o strudel com creme. Incrível.

wait for the cream

Daí, no começo do ano, revi pela 4657444x o ~~meu~~ filme AMADEUS. Alguns historiadores dizem que o compositor Salieri realmente era bom de garfo e gostava muito de doce, principalmente um chamado Mamilos de Vênus ou Nipples of Venus ou melhor ainda, Capezzoli di Venere. No filme aparece várias cenas de um Salieri glutão e em umas delas, ele e Constanze Mozart devoram o tal doce com tanta vontade que é impossível não ficar lariquenta. E o meu desejo por ele (doce) vem desde os anos 90, quando assisti pela primeira vez.

Foi então que resolvi procurar a receita e achei um blog sobre comidas em filmes, o Film Food. Não é o mais completo do mundo, mas possui bons posts com cenas memoráveis de (com) comida. Vale a pena conhecer. Ás vezes tem uma receita aqui, outra acolá. Esse tinha também um pouco sobre o doce e vou traduzir pra cá:

Nipples of Venus (Capezzoli di Venere)

Nipples of Venus em Amadeus

O nome vem da Vênus, a Deusa romana do amor, beleza e fertilidade. O doce também aparece no filme Chocolat em que Juliette Binoche os prepara. É importante lembrar que não é o mesmo que o MozartKugel, outro bombom criado pelo confeiteiro de Salzburg, Paul Fürst, em 1890, uma homenagem ao compositor Wolfgang Amadeus Mozart.

Nipples of Venus em Chocolat

Existem algumas receitas do docinho e dizem que a original é feita com castanhas romanas encontradas em Viterbo, norte de Roma, além de cobertura chocolate branco, cacau, açúcar refinado e marzipan. Outra receita é usar trufas com chocolate amanteigado, castanhas com conhaque, cobertura de chocolate com a pontinha (o “mamilo”) de chocolate branco. Se um dia o farei? Não sei se tenho dinheiro para os ingredientes e habilidades de doceira para tal. Uma pena, não é mesmo? Mas gostaria muito de achar alguém que faça a receita original no Brasil. Aqui tem um post legal sobre a comida de Amadeus.

Maquiadores do terror

Maquiagem com efeito especial é algo impressionante, principalmente para filmes do gênero terror. Atualmente existem diversas marcas maravilhosas que possuem produtos de alta qualidade que facilitam a vida do maquiador, sem contar as próteses mais leves que aderem bem melhor. Segundo o site Mundo Estranho, a maquiagem de efeito no cinema começou em filmes de Georges Méliès e também pelo inventor Thomas Alva Edison (!) que produziu em 1910 a primeira adaptação cinematográfica de Frankenstein. O Edison Studios contribuiu bastante para diversas especialidades dentro do cinema, inclusive a maquiagem.

não tem info sobre quem fez a makeup

Mas um dos grandes magos da maquiagem do terror foi o ator Lon Chaney. Ele mesmo cuidava de cada caracterização de seus monstrengos como Corcunda de Notre Dame (1923) e O Fantasma da Ópera (1925). Dizem que Chaney chegou a usar uma membrana fina e transparente que reveste o estômago de peixes para puxar o seu nariz em direção da testa e criar aquele visual macabro do seu Fantasma da Ópera. Para o seu Quasímodo, o ator usou uma corcunda de gesso de 9 kg. Sim, bizarro e até cruel, mas tendo em vista o material quase inexistente da época foi necessário. Sua maestria em criar técnicas de maquiagem de efeito acabou o apelidando de “O homem das mil faces”.

Já caracterizado como Fantasma da Ópera
Lon Chaney com sua maleta de maquiagem: próteses, perucas e muita técnica
Zoom na mala

Por incrível que pareça, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (Academy of Motion Picture Arts and Sciences) não premiava (Oscar) os artistas de maquiagem até 1980, sendo a primeira estatueta entregue para Rick Baker, pelo filme Um Lobisomem Americano em Londres (1981). Hoje em dia, essa especialidade vem sendo um pouco prejudicada por conta do avanço da tecnologia. O diretor Guillermo del Toro (do Labirinto do Fauno), por exemplo, utiliza os dois em perfeita harmonia, não descarta nenhum e emprega a todos. Apesar da infinidade de programas computadorizados, nada substitui uma boa prótese de efeitos especiais, na minha opinião como maquiadora, é claro. Para você ter ideia do talento desse pessoal, vou citar alguns artistas de FX que fizeram milagres em uma época com pouco recurso, mas muita boa vontade em fazer algo espetacular que marcou gerações.

Jack Pierce

Jack Pierce foi um dos melhores maquiadores de monstrengos depois de Lon Chaney. Ele criou maquiagens icônicas para os personagens de Boris Karloff como Frankenstein (1931), além de outros monstros criados para a Universal Studios. Pierce tinha a reputação em ser grosseiro no set, mas criou um bom relacionamento com Karloff. Muitas máscaras criadas por ele eram feitas de algodão, cola, colódio e maquiagem para teatro na cor verde (que criava o look pálido nos filmes p&b). Quase todos os personagens que Karloff interpretou (Drácula, White Zombie, Múmia etc) passaram pelas mãos criativas de Pierce. Também maquiou Lon Chaney Jr (filho de Lon Chaney, claro) para o Wolf Man. Pierce inspirou vários nomes que viriam a ser importantes na indústria da maquiagem de efeito como Rick Baker e Tom Savini. Em Maio de 2013, a Cinema Makeup School, em Los Angeles, dedicou uma galeria em memória a ele.

Dick Smith

Esse é um dos meus prediletos! Dick Smith começou sua carreira na década de 40 depois de ler um livro sobre caracterização de personagens. Resolveu se especializar e logo foi chamado para trabalhar na NBC onde permaneceu até 1959. Foi pioneiro em usar espuma de látex e plásticos para criar próteses. Além disso, publicou um livro em 1965 chamado Do-It-Yourself Monster Make-Up Handbook em que ensina passo-a-passo a criar 15 monstros diferentes com maquiagem. Smith é considerado o Godfather of Make-Up por ter trabalhado com efeitos visuais em filmes como Exorcista, Taxi Driver, O Poderoso Chefão, A Morte lhe cai bem, Fome de Viver (o vampiro velho Bowie é dele) e tantos outros. Inclusive, ele assinou a maquiagem no filme Amadeus (meuamô) e ganhou o Oscar por Melhor Maquiagem e Hairstyling (merecido porque o Salieri velho estava incrível). Em 2012 ele recebeu um prêmio honorário da Academia por sua carreira. Dick Smith faleceu em 2014 com 92 anos de causas naturais. O artista deixou uma escola, a Dick Smith’s Advanced Professional Make-Up Course onde tem diversos cursos sobre maquiagem de efeitos especiais. Se eu tivesse oportunidade em estudar sobre isso, claro que seria um luxo frequentar (mas precisa ter um básico).

O Salieri de Amadeus

Rick Baker

Como citado acima, Rick Baker é uma figura fundamental e aclamada no meio da maquiagem FX. Baker começou a brincar de maquiagem na adolescência quando criava artificialmente partes do corpo humano na cozinha de casa. Seu primeiro trabalho foi como assistente de Dick Smith para o filme Exorcista. Com seu talento e dedicação, o artista despontou e chegou a receber o primeiro Oscar da categoria por Um Lobisomem Americano em Londres (1981). Foi criação dele a maquiagem feita em Michael Jackson no clipe Thriller, Grinch, Homens de Preto, Planeta dos Macacos (2001), Professor Aloprado, Malévola e Star Wars (sim!), entre outros. Baker já foi indicado 12 vezes ao Oscar, ganhando sete. Para ele, um dos seus trabalhos mais interessantes foi em Um Hóspede do Barulho (1987). Em 2013 recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood e em 2015 anunciou sua aposentaria no cinema por se sentir cansado da competição com a parte tecnológica. Infelizmente, Baker fechou o estúdio que tinha e leiloou diversas máscaras criadas por ele.

Ve Neil

Sim, existe mulher maquiadora de efeitos especiais! Ve Neil é um dos grandes nomes na indústria cinematográfica e possui trabalhos incríveis em seu currículo. Seu primeiro filme foi Laserblast (1978) em que o maquiador Fred Phillips de Star Trek foi seu mentor. Hoje em dia ela é um dos grandes nomes da maquiagem no cinema e queridinha do Tim Burton e Johnny Depp. Inclusive, ganhou Oscar pelas maquiagens de Beetleljuice e Ed Wood. Neil foi indicada oito vezes e tem mais de 60 filmes assinados como Piratas do Caribe, O Iluminado, Inteligência Artificial, Edward Mãos de Tesoura, Jogos Mortais, Capitão Gancho, Batman (Tim Burton e com Schumacher) Constantine, Sweeney Todd, Amistad, Uma Babá Quase Perfeita (ganhou Oscar por ele também), entre muitos outros. A maquiadora veio para o Brasil em 2010 e deu uma entrevista legal para o R7 aqui.

Criando o Scissorhands

Tom Savini

Tom Savini é um dos mestres da maquiagem sangrenta, tendo o apelido de Godfather of Gore. Sua paixão por maquiagem de monstros começou na infância ao assistir as obras de Lon Chaney. Logo, treinava maquiagem caseira nele mesmo a fim de assustar seus amigos. Savini serviu ao Vietnã como fotógrafo de combate e, segundo o próprio artista, a experiência na guerra ajudou a criar seu estilo de maquiagem, pois ao registrar os cadáveres mutilados, tentava focar na destruição como se fosse efeito especial para que não surtasse com todo o horror mais do que real. Quando voltou do Vietnã, resolveu estudar na Carnegie-Mellon University e ganhou uma bolsa de estudos integral no programa de atuação e direção. Em 1974 gravou seu primeiro filme, o Confissões de um Necrófilo. Em 1977 conheceu George Romero, diretor do clássico Night of the Living Dead (1968) e formou a parceria no mesmo ano com o filme Martin. No ano seguinte fizeram Dawn of the Dead que foi um dos grandes sucessos de Savini como maquiador de efeitos especiais. Além de fazer vísceras mega reais e membros decepados, o maquiador também interpretou o líder da gangue de motoqueiros. Nos anos 80, Savini criou a imagem de Jason Voorhees de Sexta-Feira 13. Fez também Maniac (1980), Creepshow (1982) e Day of the Dead (1985), sendo os dois últimos de Romero. Também dirigiu o remake de Night of the Living Dead em 1990 que teve o roteiro reescrito pelo diretor amigo. Savini também criou sua escola em 2000, a Tom Savini’s Special Make-Up Effects Program na Douglas Education Center em Monessen, Pennsylvania, em que ensina tudo sobre efeitos especiais na maquiagem.

David Miller

Outro cara que fez um trabalho inesquecível para o terror cinematográfico foi David B. Miller. Ele foi responsável pela cara assustadora de Freddy Krueger da Hora do Pesadelo (1984). Miller começou em 1982 com o filme Monstro do Pântano e quando conheceu o diretor Wes Craven sua carreira deslanchou. Para criar o rosto de Krueger, o maquiador fez uma pesquisa profunda com vítimas reais de queimadura para que parecesse o mais real possível. A aplicação da maquiagem no ator Robert Englund durava em média de quatro horas. Miller também trabalhou em filmes como Corra que a Polícia vem aí (1988), Contos da Cripta (1989), Coração Selvagem (1990) e no seriado Angel, o vampiro namorado da Buffy.

Tom Sullivan

Outro maquiador conhecido de filmes de terror é o Tom Sullivan. O artista começou sua carreira depois que sua namorada na época o apresentou ao diretor Sam Raimi. Os dois se entenderam, pois Sullivan era fascinado com animação stop-motion e efeitos especiais. Sam o achou promissor e a parceria foi feita em Evil Dead (1981), um clássico do terror independente. Sullivan também fez a Mosca 2.

A lista é grande e acredito que rola um post parte dois para dar continuidade, mas quem tiver mais interesse em conhecer tem mais aqui.

5 gemas do cinema B na Netflix, por Miguel Andrade

Hoje tem participação especial no blog! Convidei o incrível Miguel Andrade do La Dolce Vita para fazer uma lista de cinco filmes B que podem ser encontrados na Netflix. Como ele é expert no assunto, não tem erro! Inclusive, as dicas foram tão interessantes que o jornalista já está convidado para o Volume 2 do tema. Cada dica vale ouro, confira:

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Netflix é mesmo aquela maravilha de praticidade, mas se não olhar direito, podemos nos deparar com quilos de banalidade. Escavacar o acervo deles é um dos prazeres proporcionados.

Abaixo cinco fabulosos filmes B encontráveis na Netflix. B de bom!

The Godsend

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Essa produção de suspense britânica foi distribuída pela Cannon (aquela dos filmes do Chuck Norris) no começo dos anos 80, o que pode por si já dizer alguma coisa. Família Tradicional, cheia de filhos pequenos recebe a visita de uma estranha grávida.

Estranha no sentido de desconhecida e de esquisita mesmo. Por percalços, ela acaba ganhando o bebê na casa deles e desaparece sem deixar a menor pista. O casal acaba adotando o nenê que ao crescer se revela um pequeno monstro. Mezzo A Profecia, mezzo O Bebê de Rosemary, uma delícia kitsh com criancinha psicopata de interpretação sofrível.

The Vampire Lovers

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Conhecido no Brasil também como Os Vampiros Amantes e Carmilla, a Vampira de Karnstein é atualmente o único da HammerFilms original presente no catálogo Netflix. Um clássico de horror gótico finalmente em versão completa, ou seja, com as decapitações e estacadas intactas.

Após reviver os monstros clássicos da literatura (Drácula, Frankenstein, etc.) a cores a partir de 1957, a produtora inglesa chegava ao começo da década de 70 com sua formula desgastada. A solução foi apimentar seus filmes com muitas vampiras (recrutadas das páginas da Playboy) em camisolas esvoaçantes, erotismo suave e violência acima do que se poderia esperar da época.

Isso tudo com a qualidade e classe típicas da Hammer. O roteiro parte do conto Carmilla de Sheridan Le Fanu, o que equivale, comparando mal, a um tipo de Drácula de BramStoker, só que feminino.

Na Alemanha do século XVII uma família nobre hospeda uma misteriosa baronesa que se aproxima intimamente, sobretudo da filha jovenzinha que passa a sofrer de desconhecida moléstia. Espere por muita volúpia, algum lesbianismo, sangue e “elementos vampíricos” que se tornariam iconográficos no cinema. No elenco o mitológico ator Peter Cushing e as musas Kate O’Mara e Ingrid Pitt como a sedutora protagonista de caninos afiados. Pitt se tornou o principal nome feminino da Hammer.

The Vampire Lovers gerou outros dois filmes, formando a chamada trilogia de Karnstein. Os outros são Luxúria de Vampiros e As Filhas de Drácula, todos de continuidade relativa, mas igualmente interessantes.

Las brujas de Zugarramurdi

las brujas

O espanhol Álex de la Iglesia dirige outra orgia de referências pop num emaranhado de críticas sociais. O filme começa e acaba algumas vez, nos levando junto aos bizarros personagens por momentos de histrionismo cômico e terror gráfico semelhante ao dos antigos gibis do gênero.

Basicamente um grupo de bandidos em fuga vai parar num vilarejo comandado por bruxas. Mas resumir em poucas linhas um filme de Álex de la Iglesia pode não ser justo, do mesmo jeito que a apreciação deles depende muito da absorção das referências.

Boa parte da trama se passa em Zugarramurdi, um município espanhol que realmente existe na fronteira com a França. Em 1610 (de verdade!) foi palco da condenação de 40 vizinhas pela Santa Inquisição e o roteiro faz muito bom proveito desse encontro da história com a ficção.

A principal atração turística do pequeno povoado é a Caverna do Sabbat ou Zugarramurdi, repleta de lendas do século XVI que todo ano atraem turistas e curiosos no ocultismo. E é nesse lugar onde se desenrola o apoteótico desfecho, uma das melhores sequencias musicais filmadas nos últimos tempos.

No elenco Carmen Maura (que dispensa qualquer apresentação) e os astros Macarena Gómez e Hugo Silva, um dos pilotos de Os Amantes Passageiros de Almodóvar. Os dois últimos depois trabalhariam juntos no sensacional Shrew’sNest, conhecido ainda como Sangre de Mi Sangre ou Musarañas e que também está disponível na Netflix.

The Lost Empire

lost-empire

Geralmente filmes B são divertidos visualmente e nas situações absurdas, mas têm um roteiro chato nas raias do insuportável. The Lost Empire é uma das bobagens mais legais que já vi!

Pense num lixo que envolve ninjas, mulheres de pouca roupa e seios fartos, um homem numa fantasia de gorila (!!!), espionagem, seita secreta milenar meio nazista, gostosas na cadeia, tudo isso em 1985, com uma incrível estética ultrapassada. Risos involuntários é o mínimo que você pode esperar.

Ah, as protagonistas são “três lindas garotas”, destemidas, que remetem imediatamente ao seriado As Panteras, embora aquela altura ele já tinha acabado. Mas elas, quem sabe, poderiam substituir o trio da TV (aham!). A índia do grupo é a atriz e playmate Raven De La Croix, também vista nos filmes de Russ Meyer, ou seja estava disposta para muita coisa. Consta que ela mesma criou seus figurinos, o que não quer dizer muito coisa, sério!

A cópia da Netflix é tão perfeita que ainda tem alguns daqueles rabiscos na película. Claro que é restaurado, áudio estéreo que deixa a trilha sonora executada num tecladinho vagabundo ainda melhor.

Clown

clown filme

Palhaços são insuportáveis e podem ser perigosos. Para eles mesmos!

Amável pai tenta resolver a ausência do palhaço que animaria a festa de seu filho, no porão ele encontra uma velha roupa de palhaço e decide usá-la. Aí ficamos em dúvida sobre quem usa o quê e qualquer outra informação pode ser spoiler.

Pequena surpresa independente com uma ideia realmente original. Jon Watts, que deve dirigir o próximo filme do Homem Aranha, estreava na direção em 2014 nessa pérola de ritmo irregular, mas com ótimos momentos de horror e suspense.

O filme é a versão em longa metragem do curta dirigido pelo mesmo Watts em 2010, o que pode justificar certa dilatação nas situações, mas também o apuro em soluções eficazes. Cult por natureza.

  • Miguel Andrade, 39 anos é fascinado por cultura B e o século XX. Nunca conseguiu manter seu Tamagochi por mais de duas semanas, mas desenvolve o blog La Dolce Vita há 14 anos.